sábado, 6 de fevereiro de 2010

Mãe, eu preciso te contar uma coisa

Escondido na minha toca - quente!
Um ventilador no teto.
Outro na cara.
Hélices.
Tiros.
Essa guerra que não para...
Os miseráveis provam,
no meu cinema particular,
contra tudo e contra todos,
que ainda vive o verbo amar.
- Tá nas últimas!
Alguém gritou.
- Mas está em boas mãos!
Um santa flor mulher
apareceu no meu portão
pedindo, atrevida e sorridente, pra entrar
e ele escancarou-se antes mesmo
que eu tivesse um tempo justo pra pensar.
Clandestina.
Trouxe no bolso
Uma canção bonita.
Fez a felicidade.
Feliz a cidade
desse pobre poeta abandonado
que hoje é morada da donzela
do cabelo bagunçado.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Um regador - desses de lata

Mulheres.
Flores.
Meninas.
Murcham como se pudessem
esconder a cabeça entre as pernas.
Querem mais.
Mais água.
Mais atenção.
Mais liberdade.
Querem pernas e companhia.
Talvez um pouco menos de sol.
Pétalas queimadas caem
como páginas de um livro
incendiado.
Incendeiam!
Reanimam,
ressurgem,
renascem
diante dele;
Que mata a sede das enormes raízes
e acaricia a alma dos pequenos botões.
Água fresca e companhia.
As flores, se tivessem dentes,
só sorririam pro regador.

sábado, 30 de janeiro de 2010

A arte de acabar com a vida alheia

Escancarou a porta do apartamento dela - que como sempre estava destrancada - e parou. Estava exausto. A camisa suja de sangue e o cabelo molhado de suor. A falta de ar o impedia de pronunciar uma sílaba sequer. Ela esperou, curiosa. Ele não falava nada. Apenas estendia a palma da mão, fazendo um sinal do tipo: fique calma, eu estou bem. Caminhou na direção dela, pegou-a carinhosamente pelos ombros e indicou o sofá. Ela sentou. Continuava curiosa. Mas também não conseguia falar. Era tudo muito forte, muito assustador pra ela. Afinal de contas, o que ele estava fazendo lá?

- Eu fui assaltado.
- Onde?
- No Leblon.
- E como você veio parar aqui?
- Correndo.
- Você correu do Leblon até aqui?
- Sim.
- Mas você mora na Gávea.
- Sim.
- Cara, do Leblon até aqui deve dar uns 15 km.
- Sim.
- Por que você fez isso?
- Não sei.
- Você está bem?
- Na verdade, eu sei.
- Sabe o quê?
- Porque eu corri do Leblon até a Lapa.
- Por quê?
- Porque eu te amo.
- Como assim? Me ama?
- Sim.
- Mas a gente...
- A gente se ama.
- Não. Eu não te amo.
- Você me ama, sim.
- Desculpa, mas...
- Você ainda não descobriu, mas você me ama.
- Juro que eu não estou acreditando nisso.
- Aqueles caras.
- Que caras?
- Os dois que me assaltaram.
- O que tem eles? Eles também te amam?
- Não. Eles me fizeram ver o quanto eu te amo.
- Gente, como assim me ama? Você nunca me amou.
- Eu sempre te amei.
- Você não é normal.
- Deixa eu me explicar...
- Sou toda ouvidos.
- Eu sempre te amei. Eu juro. Eu sei que é difícil de acreditar, que parece estranho, que parece injusto com a minha mulher, mas quando aqueles caras apontaram as armas pra minha cabeça, eu só pensei em você. A imagem dela desapareceu. Eu só via você. E eu pensei que se eu morresse ali, naquele instante, a única pessoa com a qual eu estaria sendo injusto seria com você, afinal de contas, eu te amei escondido durante tanto tempo e agora chegou a hora de nós dois...
- Nós dois o quê?
- Bem, eu vim aqui pra te dizer que eu vou contar tudo pra ela.
- Tudo o quê?
- De nós.
- Como assim?
- Do nosso amor.
- Que amor, meu Deus? Quem foi que te deixou subir?
- O porteiro me conhece.
- Como? Você nunca veio aqui.
- Eu sempre venho aqui.
- Pra quê?
- Pra te ver.

Silêncio.

- Por favor, saia.
- Eu não posso.
- Pode sim.
- Você não entende.
- Eu entendo. Mas vá embora, por favor. Sua mulher está te esperando.
- Minha mulhe, agora, é você.
- Que isso? Sai de de cima de mim.
- Um dia você vai me agradecer...
- Me solta.
- Que saudades do teu cheiro.
- Me solta.

Caíram no sofá. Rolaram pelo chão até o armário. Ela pegou uma faca.. Ele não se afastou. Ela contou até três. Ele tirou a camisa. Ela contou até três. Ele tirou a calça. Ela gritou. Ele tirou os sapatos. Ela chorou. Ele tirou a cueca. Ele abraçou. Ela furou. Ele sangrou. Ela furou. Ele caiu. Ela furou. Ela chorou. Furou. Chorou. Furou. Chorou. Furou. Jogou a faca no sofá e a vida no lixo.

E eu acordei.
Carboidrato depois das sete.
Sabe como é.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Rabiscos

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Compreenda

Que culpa tenho eu,
Meu santo Deus,
Se me encantei por um sorriso
Desses bons de se encantar?
Se ganhei um vaso novo
E não me canso de cheirar?
Se depois de umas cervejas,
A vida é simples de tocar?
Sorrindo aceno pra quem se foi
e acolho quem vai chegar!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Saintpaulia Ionantha

Para. Respira.
Cê veja como são as cousas.
Suores, sorrisos e uma dúzia de rosas.
Um par de olhos arregalados.
Lindos.
Tantos dentes, tanta luz.
Tanta gente me seduz que eu já não sei o que fazer - como fazer.
Encontros, desencontros.
Encontrões.
Gentileza e estupidez.
Te abracei pela primeira vez
e o mundo que nos cercava,
num segundo se desfez.
Que vontade de bagunçar o seu cabelo,
acariciar toda a superfície do seu corpo,
contar seus dentes e os meus sonhos juvenis.
A violeta na parede e o chão do meu quarto imundo de giz.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Medroso

Nesse casarão abandonado
Escuro e sem TV
Eu acabei, sem querer
Me perdendo de você
Mergulhado nesse breu
Está difícil de saber
Afogado, quem sou eu?
Meu amor, quem é você?
Não há luz natural
Que me faça perceber
Se estou dentro ou fora
Se já fui, sou ou vou ser
Eu liguei pro meu irmão
E ele ficou de trazer
Uma lanterna e uma arma
Pra eu poder me defender.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Procura-se um circo

O cheiro da lona - quente do sol
E as cadeiras azuis
Como o bordado do meu velho lençol
Farão falta ao jovem artista
Que um dia, nesse picadeiro mágico
Foi o rei da conquista
Galanteador, barato
De meia tigela
Vendeu milhares de rosas
Pra comprar pão pra ela
Mas, hoje, eu vi
- e ninguém me contou
Que o galã paraguaio
Infelizmente cansou
Aquele sujeito desengonçado
Sutilmente desolado
Enfiou seu par de pernas-de-pau
Embaixo dos braços suados
E se foi sem resmungar
Cantarolando e aceitando
Que esse circo bonito
Nunca foi o seu lugar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Mergulhei

Eu trepo no muro da minha demência
Pra espiar se além dele
Existe coerência
Um pingo, que seja
Se não tiver
Eu aceito cerveja
Escorrego
Despenco
De cara no chão
Quebro um dente
O nariz
Aquieto o coração
Boto a viola no saco
Meia volta, volver
Ser feliz é pros fracos
Eu quero viver

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O azul mais azul dos azuis

Hoje o céu está tão longe, tão cinza, tão pouco céu, que meus braços nem esboçam a costumeira e engraçada tentativa de rasgá-lo em busca de estrelas pequenas e grandes e bonitas e brilhantes e pérolas e pipocas e grãos-de-areia e estrelas, simplesmente, como devem ser - e como são em Botucatu. Ah, Botucatu! A cabeça na relva úmida do sereno, as pernas cruzadas e o céu colado na ponta do nariz. O teto azul e cintilante da cidade dos bons ares, considerado um dos mais bonitos do planeta, cobre o sorriso da criançada que corre solta, os inúmeros banhos no lago gelado, os confortantes e confortáveis colos-de-mãe (colo de mãe deveria ser escrito assim, juntinho, pra ilustrar fielmente a sensação), os braços abraçados, as bocas beijadas, o álcool ingerido e as lágrimas derramadas. A felicidade mora lá - e é pra lá que eu vou quando quero ser mais feliz, dançando e ouvindo alguém cantar bonito.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Carpete escarlate

As estrelas anunciavam o dia ensolarado que viria para me expulsar da imensidão do teu quarto branco. As taças de vinho estiradas no chão refletem a preguiça dos nossos corpos marcados por mais uma noite de alguma coisa que eu ainda não descobri o nome. Quando eu entrei, sorridente, pela porta e dei de cara com suas lágrimas mais doídas, não imaginei que a nossa noite terminaria assim. Estou embriagado. Minha cabeça vai explodir. Meu corpo está todo avermelhado. Isso não pode ser saudável. O quarto está tão sujo quanto o sangue que escorria das tuas pernas enquanto nos preenchíamos sob a água quente e violenta do chuveiro. Minha boca inchada só não dói mais que a língua rasgada que ela esconde e insiste em não deixar cair. O que foi que aconteceu aqui? Estou com medo de te acordar pra perguntar...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Pois bem

A promessa do amor que se desfez
Uma nova companhia que sorriu
A princesa se trancou mais uma vez
E a borboleta voou, mas não partiu
A carona que salvou na chuva tórrida
E a bailarina que sambou de pés descalços
A tão sonhada relação pseudo sólida
E uma felicidade, muito além, desses percalços.

A paixão que vem de graça, gargalhando
O amor que vai embora resmungando
O prazer que abre as portas sorridente
E a esperança que se afoga veementemente

Uma piscina de bolinhas coloridas
E o céu estrelado de energia
Uma alma conhecida de outras vidas
E um bichinho que troca a noite pelo dia

A paixão que faz a noite delirante
O amor que cabisbaixo se recolhe
A pele que descola ofegante
E o coração que, temeroso, se encolhe.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Chapada

Caiu
Tropeçou
Esborrachou-se
Sobre o asfalto
Quente
Dizem
Que essa tal
De cachaça
Prejudica a gente
Não sei se
É verdade ou
Invenção
Da próxima vez
Espero que rache
O coração.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

O descompasso das braçadas

Eu sou a água da poça
que respinga na barra
da saia da moça,
o vento que sopra
deixando o castelo
de areia sem torre,
o amor que foge
e decreta a viuvez
da princesa,
a covardia do cavalo
que refuga diante
da barreira mais alta,
o sangue menstrual
a escorrer pelas coxas
finas da criança,
a pétala de rosa
desabando sobre a
grama pisoteada do jardim,
o palavrão na boca do padre,
a carniça no bico do urubu,
a calça suja do mendigo e
a gravata nova do presidente,
o beijo roubado na infância
e o abraço negado na briga,
o tapa na cara mais doído
e o aperto de mão mais falso,
a tinta que escorre da caneta e
a tecla que emperra do teclado.
Eu sou tudo e nada,
nada e tudo,
nado em nada
e me afogo em tudo.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Romeu e Julieta de Havaianas

Não tenha medo, princesa!
Apenas feche os olhos
e segure em minha mão.
Não tenha medo, meu amor!
Respire fundo, abra os braços,
ouça o sussurro do seu coração.
Eu prometo não roubá-la
e nem deixá-la a me esperar.
Eu prometo amá-la e protegê-la,
custe o que custar.
Eu só quero dar as mãos
e te levar pra passear.
Entregar-te o mundo que existe
além dos muros do castelo.
Mostrar-te que um cavalo pangaré
também pode ser belo.
E que a vida só é doce
pra quem já provou o sal.

sábado, 14 de novembro de 2009

O louco que, empunhando uma rosa vermelha, discursava no meio da praça - para ninguém

Quem entende o coração? Levante a mão quem esse pedaço de carne vermelha não faz enlouquecer. Levante-se! Grite bem alto aquele que nunca sofreu por amor, que nunca chorou, que nunca riu de si mesmo, que nunca, frente ao espelho, indagou se estaria mesmo em pleno juízo. Venha até o palco e manifeste-se todo aquele ser humano, de carne, osso e alma, que jamais perdeu a cabeça por alguém, roubou uma flor, dançou na chuva, gastou mais do que podia com um presente, atravessou a cidade para olhar nos olhos de alguém. Venham! Interrompam-me, vocês, que são duros como pedras, frios como o gelo e que nunca foram dobrados por ninguém! Tirem-me esse microfone da mão para que, cheio - e tão, e somente cheio - de amor, eu não cometa o suícidio emocional de me declarar em público para alguém que prefere esconder seus sentimentos. Eu amo você, minha...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O olhar azul da Dona Maria de Lourdes

Poderia ser a minha, a tua ou a de qualquer outra pessoa. Era uma avó, como todas as outras. Baixinha, gordinha, usando uma longa saia estampada e um lenço na cabeça. Dona de um lindo par de olhos azuis que esbanjavam consciência e compaixão diante da nossa desconfiança. Bochechas redondas e rosadas. Italiana! Camuflada entre bandidos, drogados e doentes mentais que circulam pelo submundo dos moradores de rua, sorriu da nossa curiosidade e achou tudo "muito bonito". Mãe de quem? Avó de quem? Filha de quem? Abandonada por quem? Por quê? Cinco e cinquenta para uma refeição digna! São tantas as perguntas que não saem da minha cabeça. Qual a especialidade culinária dela? Um feijão bem temperado, uma macarronada suculenta ou uma receita secreta de pudim de leite? Afinal, toda avó tem que ter a sua. De onde veio? Pra onde vai? Quantas histórias tem pra contar? Será que as felizes superam as tristes? Fugiu da guerra? Da ditadura? Do hospício? Da própria casa? Espero vê-la novamente, Dona Maria.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Apagão

O suor escorrendo pelo teu corpo a quilômetros de distância do meu, nessa falta de luz, de energia, de tecnologia, me faz lamentar e pensar que se o homem não tivesse evoluído tanto, não sofreríamos por tão pouco, mas eu não teria conhecido você. A não ser que eu, jovem forasteiro primata, saísse a desbravar terras distantes e numa dessas aventuras geográficas, encontrasse você, princesa deslumbrante de alguma tribo e me apaixonasse - o que, pensando bem, seria muito provável. Um pensamento à luz de velas, sob o calor natural do planeta e ao som harmonioso da natureza. De alguém que na falta de tudo que todos sentem falta, só sente falta de você.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um pedaço da Lua

Quando o sol, cavalheiro
Cede lugar à dama lua
Eu sinto falta do cheiro
Doce da sua pele nua

Lua branca
Branca nua
Nua branca
Branca lua

Emaranhado em seus cachos dourados
Me sinto pleno
Suavemente embriagado
Pelo veneno que você destila
Risonha sobre mim
- gostoso assim.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Samba do Paulista

Atrás
Daquela montanha
Tem uma cidade, meu
Tem um céu da hora
E um mar bonito, meu
Tem uma mina linda
Esperando eu

Capaz
De dar um rolê suave
P'resses lados, meu
Ir até a casa
Dessa mina linda, meu
Pra dizer menina, olha,
Eu sou todinho seu

(Ôloco, meu!)

Do lá de cá
Tem alguém
Que se pá
Tá afim
De te namorar

Do lá de cá
Tem alguém
Que se pá
Tá afim De ti...