16 de abr de 2011

Zé Ninguém

Era um garoto com cara de homem (ou um homem com cara de garoto). Alto, magro, a barba volumosa camuflava seus traços finos. Caminhava pela rodoviária de São Paulo como se estivesse em casa, mas ao mesmo tempo, louco para partir. Tomou um café, comprou umas revistas e sentou-se no chão - ao lado de um banco vazio. A impressão que me dava era que esse cara poderia sair dali com sua enorme mochila e ir para qualquer canto do mundo. Se alguém me dissesse que ele estava esperando um ônibus para passar a páscoa com a família no interior de Minas, eu acreditaria; e se me dissessem que não era isso, mas que ele pegaria um ônibus até Buenos Aires e de lá seguiria viagem para a Patagônia ou para a América Central, eu não duvidaria. Se me dissessem que esse maluco estava indo para a Índia ou para o Marrocos, eu diria: Sim, claro! Acho até que se ele mesmo me abordasse agora dizendo estar indo para Marte ou para a Lua, eu não teria certeza absoluta que não e nem poria minha mão no fogo por isso. Ali, do chão, ele observava, usando uma revista aberta como esconderijo, todos que passavam apressados. Vez ou outra sacava uma caneta do bolso e rabiscava um pequeno pedaço de papel. Não sei se escrevia ou desenhava. Não era possível identificar. Ele escondia a as mãos atrás da revista como se estivesse fazendo algo proibido. Versos obscenos, talvez. Ele era obsceno. E por trás daquele olhar malandro de quem come pão com ovo com a mesma naturalidade com a qual degusta uma lagosta ou um caviar, ele fitava os traseiros femininos que corriam para lá e para cá. Sorria sozinho e me lembrava, a todo instante, o jovem Kerouac que atravessou a América em caminhões de carga e vagões abandonados, atrás de cerveja, mulheres e sua própria liberdade. Eu não sei para onde esse cara vai, mas ele parece não estar atrás de ninguém, a não ser de si mesmo.

2 comentários:

Anônimo disse...

gostei..

Anônimo disse...

Oloco. Você descreve coisas como um Deus. Até faz bater algo aqui dentro mais forte. E no fim, tenho um sorriso enorme no rosto por ter te conhecido!

- Clara, a dos cachos. -