18 de abr de 2011

Sobre tamanhos e fios

Eu poderia começar esse texto dizendo que ela era uma menina como todas as outras, tentando se libertar das amarras femininas e das utopias feministas. Mas não era, nunca foi. Desde pequena cuspia personalidade pelos olhos. Mas as pessoas não entendiam. Elas nunca entendem. Nem sei se ela queria ser entendida, mas. Antes de aprender a falar, ela berrava - sem lágrimas. Berrava até ficar vermelha. Berrava até assustar quem estivesse por perto. E depois ria, ria gostoso, como se estivesse dizendo: Ficaram com medo, né? Até os treze anos de idade, gostava de balé, mas, depois que menstruou, passou a achar tudo aquilo careta demais. Ganhou um violão. Aprendeu a tocar algumas notas e pôs-se a escrever refrões manjados e revoltados. Odiava as garotas por serem frescas, os garotos por serem infantis e seu cabelo por ser volumoso. Achava tudo um saco e as pessoas não entendiam. Elas nunca entendem. Em meio a tantas canções, tantas reflexões e tanta babaquice adolescente da qual ela fazia parte mas não queria, tentou se entender. Também não conseguiu. Pintou o cabelo, fez tatuagem e buscou refúgio sexual no corpo alvo e esguio de um amigo gay que ela julgava ser "a cara do Axl Rose". Escreveu. Contos, poemas e bilhetes. Desejou ser vampira, notívaga e bebeu litros de vinho até entender que também não gostava tanto assim de fazer parte da turminha que cantarolava os sucessos da Legião Urbana pelas ruas e praças. Jogou a coleção de "all stars" pela janela, comprou uns saltos e muitas meias. Mudou de turma, mudou de tamanho, mudou de cor. Afinal de contas, ela já tinha dezessete anos. Não era mais criança. Quebrou a cara, o salto e chorou no colo da mãe. Não sabia o que fazer. Não sabia quem era, o que queria e, muito menos, como faria para conseguir. As pessoas não entendiam. Elas nunca. Fez três anos de pré-vestibular e decidiu, enfim, por psicologia (Óh!). Gostou dos três primeiros meses de aula e de um professor com quem transou enlouquecidamente no estacionamento se um supermercado. Cansou. Trancou a faculdade e foi trabalhar na produtora de cinema de uma tia. Conheceu um ator. Atores são bonitos, são fodidos. Tem charme de mais e dinheiro de menos. Ela gostou. Ele ainda não sabia. Ela era insegura e se escondia atrás dos cabelos toda vez que falava com ele. Comentava sobre o tal com as amigas e elas não entendiam, elas nunca entendem. Um ator? Não combinava com ela. Mas isso era o que os outros pensavam, ela sabia que combinava e queria que combinasse cada vez mais. Resolveu assisti-lo no teatro. Ele não sabia que ela ia. Ela não sabia nem se ia. Foi. Ele era ótimo, tinha a bunda linda e uma barba por fazer que. Ela queria. Não sabia como agirr. Foi embora sem falar com ele e passou a noite toda ouvindo músicas no escuro. Chorou muito, dormiu pouco. Ela sabia que ia encontrá-lo na produtora. Saiu de casa preocupada, parou numa banca de revistas para comprar um cigarro e se deparou com a solução. Uma gigantesca capa de revista. Correu para o salão de beleza e disse: "Assim, eu quero assim." A cabelereira assustada tentou concencê-la que. Não conseguiu. Cortou o cabelo. Cortou. Curtinho. Cortou curtinho como o da atriz francesa da capa da revista. Revelou o rosto, o pescoço, revelou-se. Saiu correndo do salão como uma criança que corre ansiosa para mostrar os rabiscos que fez. Chegou atrasada e descabelada na produtora. Ele derrubou o copo de café. Ela disse: "Te vi ontem." E olhou para a bunda dele, que riu. Ela gostou. Os homens olhavam, as mulheres comentavam e ela ria. Exibia o pescoço como uma joia. Nunca havia sido tão livre e tão forte. As pessoas que nunca tinham entendido passaram a entender. Ela se libertou dos cabelos que a aprisionaram durante toda a vida. Era leve. Dormiu e acordou com o ator bonito e fodido até entender que ele seria fodido pra sempre e que isso não combinava com a nova personalidade dela. Caiu fora. Está voando por aí. Sem máscaras, sem cabelos, sem medos. Escancarou a janela da vida.

Um comentário:

malisr disse...

Vou ali cortar meu cabelo e já volto.